

Maria Eduarda Mattar
O sonho que teve, em 1993, o levou a fundar o Comitê para a Democratização da Informática (CDI); quinze anos depois, foi convidado para compor o Conselho de Tecnologia e Educação do Fórum Econômico Mundial. No meio do caminho, 50 prêmios e reconhecimentos e a expansão de sua ONG para dez países. É com essa bagagem que Rodrigo Baggio, um dos nomes mais conhecidos na área de inclusão digital, comenta, nesta entrevista ao Planeta Inteligente, a situação dos excluídos digitais. Ele defende as lan-houses – “subestimadas no papel que têm” - e pede uma política pública mais articulada. “Muitos ministérios e empresas estatais têm seus próprios programas, que poderiam se comunicar mais entre si. Isso gera uma baixa qualidade de operação”, avalia.
Qual é o ponto-chave da exclusão digital hoje em dia?
Na verdade são três. O primeiro é criar infraestrutura de acesso à Internet, ou seja, as infovias, em todos os 5.564 municípios. Segundo, processos de capacitação massiva em informática e cidadania. Isso significa mais do que o ensino da técnica pela técnica, mas integrar noções de cidadania, de empreendedorismo, que gerem autonomia a essas pessoas. É formar pessoas que possam exercer sua cidadania de forma ética, ativa e empreendedora. E, em terceiro, criar pontos de acesso comunitários e públicos, como os telecentros.
No ano passado, o governo fez acordo com as operadoras de telecomunicações: elas ficaram isentas de algumas metas do Plano Geral de Metas de Universalização e, em troca, têm de levar, até 2010, o backhaul de Internet (ou seja, a infraestrutura da rede) até a “porta” de todas as cidades brasileiras. Isso não é suficiente?
Falta a continuidade. Chegar até a porta dos municípios ou chegar com um cabo azul às escolas públicas é fazer uma coisa importante. Mas, e a partir daí? Como é o modelo de expansão do sinal nas cidades? Este é um ponto importante, tanto para ajudar as prefeituras a darem uso a esse ponto de conexão que chega, como para criar um modelo de negócio. Como vai ser viável, para essas operadoras ou para operadores locais, gerar renda e serviços qualitativos a partir da chegada de um ponto inicial?
Um modelo de negócios que facilite o acesso pela população de baixa renda?
Também. Falo de uso social, educativo e econômico também. Modelos de negócios que possam atingir todas as camadas da população e, junto com a prefeitura e com organizações da sociedade civil local, gerar uso.
Sobre os pontos de acesso, você vê com bons olhos as iniciativas atuais de telecentros?
Vejo que existe um desafio importante. O primeiro deles é a criação de uma política pública de inclusão digital sustentável, que alinhe as ações de todos os ministérios e que seja uma aliança intersetorial, integrando empresas e organizações sociais nas ações de planejamento, execução e avaliação. Depois é que vem a questão da política de telecentros. A que existe atualmente precisa avançar em três aspectos. 1) Incorporar modelos de sustentabilidade e, portanto, de autonomia. Não podemos criar estruturas que dependam continuamente do Estado. Pode-se cobrar por pequenos serviços, por exemplo. Não falo de lucro; trata-se de sustentabilidade financeira. 2) Avançar na questão do uso da tecnologia e do software: é fundamental ter liberdade de escolha. Poder ter software livre ou proprietário, desde que passado de forma gratuita. Não acho que os telecentros devam comprar software proprietário. Mas poderiam usar, desde que recebessem de forma gratuita. 3) A necessidade de avaliações claras e indicadores. Existe uma dispersão de energia, na medida em que muitos ministérios e empresas estatais têm seus próprios programas, que poderiam se comunicar mais entre si. Isso gera baixa qualidade de operação. Há um investimento para abrir e uma falta de investimento na capacitação contínua, na avaliação contínua de impacto, na articulação, o que faz com que, muitas vezes, telecentros fiquem vinculados a políticas assistencialistas, à corrupção em governos municipais ou estaduais, a uma agenda político-eleitoral.
Quando a pessoa já sabe usar informática, mas não tem computador ou Internet em casa, nem meios de usar o que sabe, ela também é uma excluída digital?
Se você isola uma pessoa, sim. Mas o fato é que, normalmente, essa pessoa pode utilizar onde aprendeu, numa lan-house, no trabalho ou na escola (se a escola estiver conectada) etc. Falta a definição de uma política de apoio às lan-houses, que hoje cumprem um papel na promoção da inclusão digital de baixa qualidade, por assim dizer. São subestimadas no papel que têm. Por falta de apoio ou incentivo, os empreendedores comunitários, donos dessas lan-houses, não têm modelos de negócio ou visão da necessidade de diversificação de serviços – ou o mínimo de capacitação em gestão. São empreendimentos comunitários enfraquecidos, do ponto de vista de gestão de negócios. Estima-se que existam hoje mais de 90 mil lan-houses no Brasil. Segundo dados do Comitê-Gestor da Internet, 47% das pessoas que se conectam à Internet no país o fazem através das lan-houses. Nas regiões Norte e Nordeste, esse percentual chega a 70%.
Equipamentos e programas de computador mudam ou se tornam obsoletos cada vez mais rapidamente. Isso é complicador para a inclusão digital?
A velocidade é parte do nosso campo. A questão é mais o conceito de inclusão digital que se tem. Esta tem de ser sustentável. Ou seja, capacitar cidadãos para exercerem sua cidadania da forma ética, ativa e empreendedora que comentei. Cidadãos que serão produtores e “publicadores” de conteúdo e conhecimento, e vão utilizá-los para gerar impacto e transformar suas realidades. E isso se faz com um TK-82, um CP-500, um Apple 2, um XT, um 386, um Pentium, com Internet banda larga ou com linha discada, com implante de chips no cérebro. A tecnologia é meio. O grande desafio é como se usa. Se usamos como tecnologia de libertação, tem-se uma arma muito poderosa, independentemente de ser um Pentium, um telefone celular ou uma rede social.
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